Questões contábeis somam-se a pressões sobre a Acer

Aries Poon, Lorraine Luk e Loretta Chao | The Wall Street Journal, de Taipé

A revelação da Acer Inc. de que vai dar baixa contábil em contas questionáveis na Europa motivou preocupações sobre a administração de estoque da empresa, disseram analistas, mas o verdadeiro desafio de longo prazo é desenvolver aparelhos portáteis atraentes para concorrer no mercado de tablets, em rápido crescimento.

A ação da empresa de Taiwan, segunda maior fabricante de PC em faturamento depois da Hewlett-Packard Co., caiu ontem para a menor cotação em cinco semanas depois de ela anunciar, na quarta, que vai contabilizar uma despesa de US$ 150 milhões nos resultados para dar baixa contábil em contas suspeitas na Europa. Ela também pretende eliminar vagas como parte de um esforço mais amplo para cortar as despesas operacionais. Muitos analistas esperam agora que ela divulgue prejuízo no segundo trimestre por causa disso.

Ainda não se conhecem os detalhes da baixa. Muitos analistas disseram que os problemas da Acer na Europa advêm de sua estratégia de oferecer produtos por meio de grandes parceiros de distribuição que habitualmente têm estoques enormes.

O enfraquecimento da demanda dificultou a venda do excesso de mercadorias, elevando os estoques a um nível que é difícil de diminuir. A analista Jenny Lai, do HSBC, disse esperar que a estratégia futura de vendas da Acer envolva mais propaganda direta ao consumidor.

A Acer não quis comentar ontem sua estratégia de vendas. Ela também informou que não sabe se os problemas na Europa são ligados a empregados antigos ou atuais. A auditoria interna das operações europeias da empresa já foi concluída, segundo um comunicado por escrito da Acer.

A revelação ocorre mais de dois meses depois que o diretor-presidente e presidente corporativo Gianfranco Lanci – apontado pelo analista Arthur Hsieh, do UBS, e outros como responsável por assumir a liderança no relacionamento crucial da empresa com seus distribuidores, especialmente na Europa – pediu demissão após uma batalha no conselho de administração. A empresa citou uma mudança no mercado, que passou a favorecer os tablets, popularizados pelo iPad, da Apple Inc., como o fator por trás da mudança na diretoria. Não foi possível localizar Lanci ontem para que comentasse a questão.

A Acer tem lutado contra as fracas vendas de PCs – especialmente dos computadores pequenos e baratos chamados netbooks que a empresa ajudou a popularizar. O crescimento do nicho tem sido mais lento por causa da popularidade dos tablets.

Segunda a firma de pesquisa de mercado IDC, as vendas de netbooks devem cair 10% este ano, enquanto as vendas mundiais de PCs já caíram 1,1% só no primeiro trimestre. Já as vendas de tablets, enquanto isso, devem quase dobrar este ano.

"Se a Acer acha que ainda pode conquistar clientes num mercado de PCs em mutação e com preços competitivos, isso não vai acontecer", disse Lai, a analista do HSBC.

A Acer só começou a oferecer seu primeiro tablet em fevereiro, quando passou a vender um modelo baseado no sistema operacional Windows, da Microsoft Corp.

Esta semana, ela anunciou um tablet que usa o sistema operacional Android, do Google Inc., e um smartphone que terá a mais nova versão do Windows. Ambos devem chegar às lojas no segundo semestre.

A Asustek Computer Inc. lançou esta semana seu notebook "ultrafino", um mercado que muitos esperam que reavive as fracas vendas de PCs porque não concorre diretamente com os tablets. Jim Wong, que substituiu Lanci na presidência da Acer, disse quarta-feira que a empresa está desenvolvendo um notebook ultrafino mas não falou quando ele chegará ao mercado.

"Sem um produto forte, achamos que a recuperação da Acer pode demorar mais do que os mercados esperam", disse o analista Henry King, do Goldman Sachs.

A Acer tem dependido de terceirizados para projetar produtos e software e é relativamente fraca quando se trata de desenvolver produtos internamente, fazendo com que demore para reagir às necessidades do mercado, que mudam rapidamente, dizem analistas. Ela gastou menos de 0,4% do faturamento do ano passado em pesquisa e desenvolvimento, enquanto a Asustek, com faturamento parecido, gastou 3%.

Wong disse que a Acer vai aumentar o investimento para até 1,2% da receita e mais que dobrar sua equipe de P&D na China.

(Colaborou Jenny Hsu)

Fonte: Valor Econômico

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