E depois da festa de formatura?

Luiz Gonzaga Bertelli (*)

Algumas décadas atrás, a vida estudantil tinha apenas uma única festa: a formatura da faculdade. A cerimônia representava o ápice de uma caminhada que começava no bê-a-bá. Hoje, a graduação no ensino superior continua sendo celebrada, mas outra fase ganhou sua comemoração: o ensino médio. Alegria à parte, a mudança não deixa de ser um tanto preocupante: será que os jovens tendem a festejar por não terem muito claro o que vai ser do seu futuro? A comparação de dois números do Censo Escolar 2007, divulgados no início de fevereiro pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), mostra que a conta entre as matrículas no último ano do ensino médio (2,2 milhões) e os ingressos no primeiro semestre do superior (1,4 milhão) não bate. Ou seja, em cada 100 alunos, 33 não prosseguem seus estudos.

É compreensível, mas não justificável: apesar das cotas e de outras facilidades, o acesso de jovens de baixa renda à universidade pública ainda é insuficiente e o crescimento da renda familiar (expressa na redução das classes D e E, com consequente expansão da classe C) nem sempre viabiliza o pagamento das mensalidades das particulares, nas quais o estudo do Inep aponta a ociosidade de 1,3 milhão de vagas, mesmo com incentivos como Prouni e até mesmo a redução do valor das parcelas, por algumas instituições.

Mas, será que a inclusão profissional passa necessariamente por uma faculdade? Em abril deste ano, o CIEE realizou mais uma festa de formatura, para comemorar a conclusão da capacitação das primeiras turmas do programa Aprendiz Legal, voltado a jovens entre 14 e 24 anos que, no mínimo, estejam cursando o ensino fundamental. Na prática, esse programa não só vem preparando jovens para uma profissão, como tem auxiliado muitos deles a vencer a entressafra acadêmica, entre a conclusão do ensino médio e o sucesso no vestibular. O Aprendiz Legal, além de oferecer cursos de formação técnica de nível básico em quatro modalidades (Ocupações administrativas, Comércio e varejo, Práticas bancárias e Telesserviços) – todo montado com a metodologia pedagógica da Fundação Roberto Marinho –, assegura ao jovem um contrato especial, pela CLT, de dois anos e, consequentemente, um salário que pode ser usado para financiar um cursinho ou, se poupado, até mesmo para encarar o primeiro ano da faculdade com mais tranquilidade. Parte dos 245 jovens que receberam seu certificado de aprendiz no Teatro CIEE, na última quinta-feira, se já não estão matriculados no ensino superior, ao menos têm a meta próxima de ser realizada. E o mesmo acontece, seguramente, com os outros 12 mil aprendizes, hoje sendo treinado em três mil empresas e órgãos públicos parceiros do CIEE.

Novamente, voltando aos cálculos: registram-se apenas 141 mil aprendizes em todo o Brasil, indicando o cumprimento ainda tímido da Lei da Aprendizagem. Mas, considerando a parcela de jovens que podem se beneficiar com essa capacitação, chega-se ao número de 1,3 milhão de aprendizes potenciais, coincidentemente ou não a mesma quantidade de vagas ociosas na rede universitária. Num sistema ideal, em que toda potência é convertida em resultado efetivo, a educação brasileira seria uma máquina azeitada, evitando o desperdício de talentos hoje constatado.

(*) Luiz Gonzaga Bertelli é presidente executivo do Centro de Integração Empresa-Escola – CIEE, da Academia Paulista de História – APH e diretor da Fiesp.


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