Pequenos sofrem para manter negócios

Pequenos sofrem para manter negócios

Microempresários precisam contornar diversos fatores para se manter no mercado e expandir o raio de atuação

Míriam Bonora
miriam.bonora@jcruzeiro.com.br

Alta carga tributária, crédito caro para investimento, burocracia, dificuldade em contratar mão de obra qualificada, problemas com logística e infraestrutura do país, concorrência com produtos importados. Segundo o Sebrae-SP, estes são alguns dos principais fatores que dificultam o crescimento das empresas no Brasil, principalmente as de menor porte. Em Sorocaba são 57.079 pequenos negócios, que representam 88,4% de todas as empresas ativas, segundo dados do portal Empresômetro, do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT). Nesse grupo estão os microempreendedores individuais, microempresas e as empresas de pequeno porte.

O gerente regional do Sebrae-SP, Carlos Alberto de Freitas, destaca que as empresas precisam contornar diversos fatores para se manter e expandir o negócio. Um dos desafios é a competitividade sistêmica, em que as empresas brasileiras perdem para mercados externos com a China, Japão, Europa e Estados Unidos.

Contribuem para essa baixa competitividade das empresas brasileiras a alta carga tributária direta e indireta, que cresce na medida que aumenta o faturamento, o que também pode assustar pequenos empresários. Freitas ressalta que, com tributos mais elevados do que em outros países, dificulta a competição não só local, mais global. "É importante competir globalmente porque se você não competir com outros países, outros países vão querer competir com as empresas daqui, e aí a gente perde uma parcela do mercado interno", explica.

Com isso, os produtos importados ganham cada vez mais espaço no mercado interno. O último número do Coeficiente de Penetração das Importações, que mede a participação dos produtos importados no consumo nacional, alcançou 21,9% no terceiro trimestre de 2014, segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI). A fatia dos produtos estrangeiros aumentou 0,8 ponto percentual em relação ao mesmo período de 2013, a maior da série histórica, iniciada em 2007.

"É uma fatia que a produção brasileira perdeu, principalmente nos produtos de alta tecnologia, que possuem maior valor agregado, dão mais rentabilidade e empregam mais gente qualificada", diz Freitas. O gerente do Sebrae comenta que essa perda de mercado de produtos nacionais não é boa para um país que quer crescer, empregar, pagar maiores salários e gerar maior qualidade de vida para as pessoas.

Crédito, burocracia e mão de obra

Outro fator que dificulta a expansão dos negócios são as condições de crédito para investimento, por conta das taxas de juros altas e prazos curtos de pagamento. Há países em que a taxa é zero para investimento, como Japão e China, exemplifica o gerente. "O crédito é importante para comprar equipamentos mais atualizados, que deem mais produtividade".

Para as empresas de menor porte, outro empecilho para acesso a crédito é a falta de informações que comprovem as condições de pagamento. "O banco não quer terreno, galpão, quer o dinheiro de volta, porque é nisso que ele faz o giro", afirma Freitas.

A contratação de mão de obra qualificada é também um desafio maior para as micro e pequenas, pois as maiores geralmente oferecem mais benefícios, o que atraem os profissionais para mudar de emprego e geram uma alta rotatividade nas pequenas.

A burocracia também pesa, e cada vez mais conforme a empresa cresce, como relatórios, balanços, notas, formulários, declarações e informações que é preciso fornecer, diz Freitas. "A burocracia e os impostos podem contribuir para a cultura de não crescimento", admite o gerente do Sebrae.

Desafios são sentidos no dia a dia
 
Os fatores elencados pelo gerente do Sebrae-SP, Carlos Alberto de Freitas, para a expansão dos negócios de menor porte são percebidos no dia a dia pelo casal de empresários Tatiane Begnossi, 27 anos, e Marco Domingues, 28, proprietários do pet shop on-line Geração Pet há dois anos. Após um ano, eles migraram do microempreendedor individual (MEI) para a microempresa e já sentiram diferenças. Com a mudança, eles passaram a pagar impostos como o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), que antes não era cobrado. A burocracia também aumentou, pois eles precisam ter um controle mais rígido de tudo o que é comprado e vendido, do balanço financeiro e sistema de notas. Eles também precisaram contratar um contador, que antes não era exigido.

No entanto, eles destacam também as melhorias da migração. Entre elas está a possibilidade de terem sócios, o que não era permitido como MEI, o faturamento permitido ser maior, assim como a permissão para contratação de mais funcionários. "Foi bom mudar, pois é sinal que estamos crescendo. Ficamos felizes. A gente sabia que ia aumentar a carga tributária. Reduziu a margem de lucro, mas aumentaram as vendas", comenta Tatiane.

Outro benefício foi o acesso ao crédito, pois antes os bancos não disponibilizavam nem mesmo o cartão de crédito por conta do risco. "Eles sabem do limite de faturamento e em como é fácil abrir um MEI", afirma Marco. Eles sabem que o crédito que podem conseguir agora não será alto, principalmente pelo aumento da inadimplência nos últimos anos, mas a pontuação da empresa melhora com o tempo de CNPJ.

Agora a meta é abrir uma loja física também, mas para isso é preciso evoluir para empresa de pequeno porte, conseguir crédito para investimento e contratar funcionários. A mão de obra é um outro desafio. Mesmo podendo contratar, eles precisam equilibrar a limitação de remuneração e a dificuldade em encontrar pessoas qualificadas para o serviço administrativo no ramo de comércio on-line.

A concorrência é outro fator que atrapalha, pois as empresas maiores possuem maior margem de lucro, pois conseguem mais descontos com os fornecedores pela alta demanda. "A gente vai se equilibrando, encontrando alternativas, queremos crescer até chegar ao tamanho dos grandes", planeja Tatiane. Uma dica é também controlar o dinheiro em caixa e usar parte do lucro para reinvestir, sem fazer retiradas irresponsáveis.

Parte dos profissionais também está investindo no primeiro passo, a formalização. Produtor de peças personalizadas em pedras, o proprietário do Ateliê do Granito, Fabiano Roque de Lima, conta que trabalha no ramo há dez anos, mas formalizou a empresa há oito meses. Era necessário ter um CNPJ para vender seus produtos em larga escala, como deseja fazer com suas tábuas de granito. "Agora posso emitir nota, a confiança do comprador é maior", relata.

As dificuldades são as mesmas de outras empresas e ainda assustam, como o custo da mão de obra, os impostos e a dificuldade de acesso ao crédito para investimento. "Quero crescer, comprar máquinas que acelerem a produtividade, vender para empresas de varejo maiores", planeja. Dentre as estratégias para ganhar mercado estão a manutenção de um padrão de qualidade, oferecer produtos diferenciados, embalagem profissional, seleção de materiais de qualidade e uma relação franca e atenciosa com os clientes. (M.B.)

Orientações para manter e fazer crescer o negócio

O gerente regional do Sebrae-SP, Carlos Alberto de Freitas, destaca cinco importantes orientações para os microempreendedores individuais, microempresários e donos de empresas de pequeno porte. Confira.

1) Planejamento – É preciso sempre separar um tempo para planejar, organizar a empresa e entender os cenários que vem pela frente para não ser pego de surpresa. Ter objetivos e metas de curto, médio e longo prazo; adquirir conhecimento constantemente, acompanhar e fazer adequações é essencial para um bom planejamento. É preciso se preocupar também com o marketing, que engloba desde o que é oferecido ao cliente (produto ou serviço) até fatores de distribuição, preço e estratégias de comunicação. É preciso considerar também o mercado, com oportunidades e ameaças, como os concorrentes.

2) Mão de obra – Contrate pessoas que vão te ajudar nesse crescimento, para quem você possa delegar tarefas e responsabilidades. Para isso, é preciso contratar profissionais qualificados e remunerar de forma adequada. É preciso exigir e reconhecer na mesma medida para evitar a rotatividade.

3) Manter o padrão – Os clientes, sejam pessoas físicas ou jurídicas, precisam ter a segurança de que vão encontrar um padrão de qualidade do serviço ou produto que adquirem. Manter a qualidade esperada pelos consumidores é importante. A dica é, além disso, estar sempre de olho nas mudanças culturais, já que essa expectativa também muda, assim como as necessidades e desejos. A profissionalização é fundamental para manter esse padrão.

4) Persistência e ambição – Para crescer é preciso ter um objetivo, ser ambicioso, querer prosperar, e também perseverar. Com determinação e foco é possível alcançar os próximos degraus.

5) Oferecer novidade – O Brasil ainda é pouco competitivo internamente em relação aos mercados internos de outros países. Essa pode ser uma oportunidade de encontrar nichos pouco ou nada explorados, oferecer novidades, inovar, buscar um diferencial que vai alavancar o crescimento do negócio. Não se pode contentar-se com o que já existe, com o que já é atendido, é preciso pensar fora da caixa. (M.B.)

Fonte: Jornal Cruzeiro do Sul

 

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