Sustentabilidade empresarial

Sustentabilidade empresarial

Aqui no Brasil, a contabilidade ainda não é valorizada pelos empreendedores como deveria. Em muitas empresas, o setor contábil serve apenas como um instrumento para os órgãos de fiscalização, e muitos executivos não conhecem ou não têm interesse em conhecer as informações importantes que esta área produz. Nesse contexto, percebe-se que dentro da empresa são produzidas diversas informações paralelas não consistentes com os registros contábeis, quando o melhor seria aproveitar ou melhorar as informações já produzidas pela própria contabilidade.

Tomar decisões sem olhar com cuidado para os números contábeis é, no mínimo, temeroso. Um exemplo da falta de cuidado com as informações contábeis está relacionado à não implementação das normas internacionais estabelecidas na Lei 11.638/07 por uma parte relevante de empresas. Essa Lei, em vigor desde 2008 e que determinou a convergência das regras brasileiras às normas internacionais de contabilidade (IFRS), não é específica para contadores, mas, sim, para a empresa como um todo, pois, com as mudanças substanciais que ocorreram, a contabilidade precisa receber informações das demais áreas da empresa para processar as mais diversas transações, como é o caso do reconhecimento dos instrumentos financeiros, revisão da vida útil dos ativos imobilizado/intangível, benefícios a empregados, entre outros. Ou seja, não somente o contador precisa conhecer essa Lei, mas também outros profissionais da empresa, pois a ausência de interação com outros departamentos certamente influenciará o resultado e a situação patrimonial e financeira.

Soma-se à necessidade de atender as diversas legislações fiscais e societárias o fato de que, com a crise internacional, os bancos têm sido mais seletivos ao conceder crédito, analisando com maior detalhe as demonstrações contábeis das empresas, assim como muitos investidores ao optarem por investir parte de seus recursos em economias emergentes, demandam também a apresentação de demonstrações adequadas às legislações e transparentes.  

Nos últimos anos, temos verificado um volume significativo de empresas brasileiras acessando e/ou tentando acessar o mercado de capitais em busca de novas alternativas de financiamento para crescer e conquistar novos mercados com recursos mais baratos. Também notamos diversos empreendedores vendendo total ou parcialmente suas empresas.

Embora o volume de negócios seja significativo, ainda está muito abaixo do que poderia ocorrer, pois muitos deles acabam não passando da primeira reunião entre os interessados. Entre os diversos problemas que impedem a finalização de uma negociação, um relevante está relacionado à falta de demonstrativos contábeis adequadas e transparentes já na primeira apresentação da empresa. Essa situação, muitas vezes, inviabiliza qualquer discussão, pois os investidores não dispõem de números precisos e consistentes, e não estão dispostos a esperar a contabilidade ser regularizada. Quando o investidor está disposto a analisar os números contábeis, e esses estão imprecisos, certamente haverá impactos negativos sobre o preço da empresa, já que o comprador/investidor tenderá a depreciar o patrimônio da empresa.

O mercado de capitais brasileiro tem um espaço significativo para crescer, uma vez que existe um número limitado de empresas listadas em Bolsa. Existem iniciativas para simplificar o acesso das empresas a esse mercado, pois, embora estejamos enfrentando alguma turbulência no mercado financeiro internacional, o cenário no Brasil demonstra que investir em ações já é uma realidade na vida de muitas pessoas; ainda que o País careça de uma tradição como a demonstrada pelos mercados norte-americanos e da Europa Ocidental.

Nesse contexto de oportunidades, além de atender às legislações fiscais e societárias, é essencial que as empresas implementem estruturas de governança corporativa, adequem os controles internos e a gestão de riscos e disponham de informações contábeis consistentes, tempestivas e com qualidade para estarem preparadas para receber novos investidores e acessar novos mercados, além de servir como um instrumento de tomada de decisão.

Cada empresa, portanto, deve cuidar adequadamente de sua contabilidade e das informações que produz. Os executivos devem tratar a contabilidade não como ou cumpridor de obrigações fiscais, mas, sim, como um provedor fiel da situação patrimonial e financeira da empresa para a tomada de decisões. Manter contato constante, direto e próximo com seus contadores e estabelecer uma comunicação eficiente, aliada a uma agenda de prestação de contas, são medidas que qualquer gestor ou empresário deve adotar como prática essencial para a sustentabilidade de seu empreendimento, o que sem dúvidas será um componente importante para o sucesso do seu negócio.

Marcelo Aquino

Fonte:  DM

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