Do “apagão” de mão de obra ao desemprego recorde

* Por Francisco Ramirez

Um supermercado com excelentes opções de oferta de um determinado produto parece ser o sonho de consumo para seus consumidores. O custo de aquisição do produto cai e o número de alternativas potenciais se expande, permitindo ao comprador uma amplitude de escolha maior e mais barata.

Nos últimos meses, tenho ouvido com muita freqüência este raciocínio ser transplantado para decisões de contratação de profissionais. Afinal, a estação de reestruturações e demissões decorrentes da crise global, que nos atingiu mais diretamente no final de 2008, teria colocado no mercado um elevado número de profissionais que, até então, estavam empregados. Dentre estes, os executivos.

Assim sendo, estaríamos vivendo um momento de mercado em que a abundância de executivos altamente qualificados permitiria encontrar boas alternativas para contratação a custos “módicos” de remuneração.

Para os que acreditam que isto seja verdade, tenho más notícias! O aumento do número de executivos desempregados e disponíveis no mercado traz algumas conseqüências importantes para potenciais empregadores e para o candidato a um novo emprego.

O primeiro impacto se dá, paradoxalmente, sobre uma variável cujo comportamento deveria ser positiva para quem contrata: custos de recrutamento. O motivo é simples. O trabalho de recrutar e avaliar diretamente, a partir de uma grande base de candidatos que se oferecem à sua empresa – job seekers – sem qualquer critério, a não ser o fato de estarem desempregados, requer de seu time diretivo a dedicação de um tempo precioso. Nestes tempos de crise, os resultados deste investimento de tempo podem ser altamente duvidosos. Afinal, nada garante que os candidatos ávidos por um emprego, que mandam seus currículos para a empresa por todos os canais possíveis, tenham qualquer coisa a ver com aquilo que sua companh ia busca para ser melhor e mais competitiva. Acaso por acaso, prefiro a loteria, que é mais divertida e cujo custo é menor.

Outra fonte de oferta de candidatos muito utilizada nestes momentos é a indicação por conhecidos que as redes de relacionamento virtual – vamos apelidá-las de cibernetworking – se encarregam de duplicar, multiplicar, centuplicar. Novamente, esta forma de buscar profissionais, assim como outras fontes passivas de recrutamento, nos levam aos mesmos candidatos que já estão disponíveis, procurando emprego etc.

O recrutamento de executivos não é um trabalho para amadores, muito menos uma busca aleatória. É um processo de consultoria que requer uma clara análise da empresa, sua cultura, suas necessidades de talento e competências e o total compromisso de consultores qualificados. Este processo visa identificar aquelas características que farão com que candidato selecionado tenha pleno êxito em sua integração na nova empresa e traga consigo aquelas competências decisivas para alcançar os níveis de desempenho que a empresa precisa.

No fundo, seja um momento de escassez (apagão) ou de super-oferta (desemprego) de profissionais, a qualidade do processo é essencial, pois se trata de encontrar o que é melhor para uma determinada empresa.

Uma crise de desemprego pode criar oportunidades para recrutar talento executivo, mas para fazer boas contratações é preciso saber muito bem o que se busca.

* Francisco Ramirez é sócio-consultor da ARC Executive Talent Recruiting, consultoria de gestão e de recrutamento de executivos

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